Muito antes que fosse reconhecida como ciência, poder-se-ia dizer que uma espécie de "oceanografia" empírica, primitiva, já despertava interesse e atenção na região de Rio Grande. Por uma questão de sobrevivência, os primeiros navegadores a singrarem nossas águas, no início do século XVI, precisavam observar e compreender as correntes costeiras e oceânicas, as variações do estado do mar e suas respostas aos ventos dominantes. Para não naufragarem, era também de fundamental importância avaliar corretamente as profundidades, a posição dos movediços bancos de areia submersos e a localização precisa dos canais navegáveis, sujeitos as constantes mudanças.
Demonstrando tal preocupação, já em 1737, após transpor a perigosa barra, o fundador Silva Paes mapeou os seus canais e também aqueles em torno a Rio Grande, registrando as profundidades e as correntes. Muitas outras observações e registros "oceanográficos" similares foram acontecendo ao longo dos anos, à medida que aumentava o movimento de navios no único porto marítimo da província e também o número de naufrágios nas imediações da então chamada "barra diabólica". Consta que, apenas na primeira metade do século XIX, até junho de 1861, quando ocorreu o famoso naufrágio do Prince of Wales, nada menos do que 198 embarcações haviam soçobrado no inóspito litoral gaúcho, onde o único abrigo das tempestades só podia ser encontrado após a arriscada ultrapassagem da barra de Rio Grande.
No entanto, uma oceanografia realmente baseada na cidade de Rio Grande começou a delinear-se apenas no ano de 1953, quando, em 20 de março, foi fundada a "Sociedade de Estudos Oceanográficos de Rio Grande" – SEORG, que criou o Museu Oceanográfico de Rio Grande.
A implantação das primeiras faculdades em Rio Grande, nas décadas de 50 e 60, coincidiu com o crescimento da pesca e da indústria pesqueira local e com um aumento do interesse pelas ciências do mar. Havia um ambiente favorável e um momento propício, que fez com que se começasse a idealizar uma faculdade de Oceanologia. Em 27.08.70, por decisão do Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão da FURG, foi criado o curso de Oceanologia, primeiro curso de graduação do país nesta área do conhecimento. A primeira turma de estudantes ingressou em março do ano seguinte.
Em 1976, seguindo uma tendência mundial, a FURG incorporou o Navio Oceanográfico (N/Oc) “Atlântico Sul” e a Lancha Oceanográfica (L/Oc) “Larus”, permitindo estudos oceanográficos mais aprofundados na plataforma do sul do Brasil e na região estuarina da Lagoa dos Patos. Ainda em plena atividade, o Navio Oceanográfico (NOc) “Atlântico Sul” tem atuado em toda a costa brasileira, desempenhando recentemente papel fundamental para que as atividades do Programa REVIZEE (Programa de Avaliação do Potencial Sustentável dos Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva) pudessem alcançar bom termo.
É possível afirmar que, ao longo de mais de duas décadas de atividade, o NOc. “Atlântico Sul” tem sido não apenas um grande diferencial para o êxito da FURG nas ciências do mar. Ele tem contribuído decisivamente e de forma sistemática na formação profissional de inúmeros oceanólogos, na ampliação do conhecimento científico sobre o mar brasileiro e no oferecimento de novas alternativas para a produção pesqueira nacional.
No final de 1976 a Universidade lançou a Atlântica, o primeiro periódico científico editado pela instituição. Ao longo de seus quase 30 anos, a revista “Atlântica” granjeou progressivamente reputação como um periódico científico de qualidade, que pode ser encontrado nas bibliotecas das principais instituições de todo o mundo.
O Mestrado em Oceanografia Biológica foi o primeiro curso deste nível da FURG, tendo sido aprovado formalmente pela CAPES em setembro de 1978. O curso de mestrado contribuiu para ampliar a produção científica na área de oceanografia e para atrair pós-graduandos de diversos países da América Latina. Seu funcionamento também repercutiu no oferecimento de um ensino de graduação, sempre mais atualizado e qualificado.
Dando continuidade ao crescente amadurecimento científico da FURG, foi realizado em novembro de 1982, em parceria com a Duke University (USA), o "Simpósio Internacional sobre Ecossistemas Costeiros: Planejamento, Poluição e Produtividade". Cientistas conceituados, representando 24 países, pela primeira vez convergiram simultaneamente para Rio Grande e para a FURG, com o objetivo de apresentarem e discutirem os resultados de suas pesquisas.
A década de 80 foi caracterizada pela maturidade alcançada pelo curso de pós-graduação; pelo incremento da produção científica; pela crescente captação de recursos externos de diversas fontes para o financiamento dos trabalhos de pesquisa; pelo aumento do número de dias de mar do NOc “Atlântico Sul” e ainda pela consolidação do prestígio dos docentes-pesquisadores da FURG, que passaram a ser cada vez mais requisitados para participar de bancas e oferecer cursos de curta duração, palestras e conferências em outras instituições e em congressos no país e no exterior.
No ano de 1987 teve lugar um dos fatos mais relevantes da história da Universidade, que foi o reconhecimento oficial de sua vocação institucional pelo Conselho Universitário. Através da Resolução N° 14/87 do CONSUN, foi definido como vocação institucional o estudo do "Ecossistema Costeiro", em sua acepção mais ampla. Desde então, a ação da Furg voltada ao ambiente marinho e costeiro passou a se fazer presente em todos os seus cursos de graduação (35) e de pós-graduação (16), o que levou, entre outras coisas, a ter, há dez anos, o primeiro e único mestrado e agora o primeiro e único doutorado em Educação Ambiental do País.
Em 1992 teve início o primeiro curso de doutorado da Instituição, o de Oceanografia Biológica. Em 1997 houve o ingresso da primeira turma de pós-graduandos do curso de mestrado em Oceanografia Física, Química e Geológica. Em 2004 a FURG passou também a oferecer o curso de doutorado nesta área de concentração.
O cultivo de espécies de interesse econômico teve impulso em 1989, com a construção na praia do Cassino dos laboratórios e tanques de cultivo da Estação Marinha de Aqüicultura (EMA). As modernas instalações, construídas com recursos recebidos do BNDES, foram inauguradas em julho de 1991. A consolidação das pesquisas nesta importante área do conhecimento e a titulação dos docentes levou à criação do mestrado em Aqüicultura, aprovado pela CAPES em outubro de 2001. Em julho de 2007 foi aprovado pela CAPES o curso de Doutorado em Aqüicultura.
O ano de 1995 ficou marcado pelo reconhecimento nacional e internacional da FURG, escolhida como a única instituição da América do Sul para sediar um centro de excelência na formação de recursos humanos para o uso adequado dos ambientes costeiros, denominado Train Sea Coast Programme.
Ao lançarmos um olhar para o passado, deslocando-nos para os primeiros anos de funcionamento da Universidade e do curso de Oceanologia, é possível perceber que a elaboração e a implantação do Projeto Atlântico, em meados dos anos 70, foi uma clara ação estratégica, com visão de futuro, que propôs uma missão para a Oceanografia na FURG. Ao recuarmos um pouco mais, ao final da década de 60, concluiremos que também a visão dos pioneiros, que lutaram pela criação de um curso de Oceanologia em nossa Universidade, estava correta. Eles avaliaram acertadamente o potencial de Rio Grande e da FURG para a área de oceanografia.
Localizada em uma cidade cercada pelas águas do Oceano Atlântico e do estuário da Lagoa dos Patos, havia quase um determinismo geográfico e histórico para que a Universidade se dedicasse às ciências aquáticas. Percebendo claramente esta perspectiva, aqueles pioneiros vislumbraram a importância da instalação de um curso de Oceanologia, mesmo cientes de que não havia qualquer parâmetro nacional a ser seguido, uma vez que se tratava do primeiro curso do país.
A verdade é que o êxito da Oceanologia da FURG serviu de modelo para todos os demais cursos que vieram a ser criados no país. Estudantes de países tão diversos como Uruguai, Venezuela, Panamá e Guiné-Bissau foram atraídos para Rio Grande para cursar Oceanologia. Maior ainda foi a representatividade dos que vieram cursar a pós-graduação, com mestrandos e doutorandos oriundos do México, Venezuela, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Costa Rica, Panamá, Cabo Verde e Uruguai. Na última década os laboratórios de pesquisa oceanográfica da FURG também têm recebido solicitações de doutores do Brasil e do exterior interessados em realizar aqui os seus projetos de pós-doutorado. Além dos brasileiros, a Universidade tem acolhido doutores vindos da Alemanha, Espanha, França, Índia, Albânia, Argentina e Cuba.
No presente a FURG possui três campi. O Campus Carreiros abriga a maioria dos cursos de graduação e pós-graduação, a antiga Base Oceanográfica e tantas outras unidades. Neste momento a FURG passa por uma reestruturação da sua estrutura administrativa, que possibilitou a criação do Instituto de Oceanografia, antigo sonho dos docentes que atuam na área. É no Campus Carreiros que ocorrerá o IV Congresso Brasileiro de Oceanografia, o CBO’2010, nas dependências do Centro Integrado de Desenvolvimento Oceânico e Costeiro (CIDEC-SUL). O Campus Cidade foi o primeiro da Universidade e hoje abriga o Colégio Técnico Industrial “Prof. Mário Alquati”, voltado ao ensino médio e técnico. O Campus Saúde inclui a área acadêmica dos cursos de Medicina e Enfermagem e o Hospital Universitário.
É neste contexto que nasceu o Encontro Brasileiro de Oceanólogos em 1981, destinado a congregar estudantes e profissionais, que evoluiu ao longo dos últimos 25 anos e alcançou sua maturidade com a criação do Congresso Brasileiro de Oceanografia, realizado pela primeira vez em Itajaí (SC). O CBO’2005 teve lugar em Vitória (ES). O CBO’2008 confirmou o status de evento maior da área oceanográfica, congregando, além de estudantes e profissionais, também as empresas relacionadas com as ciências do Mar, com o objetivo de debater e trocar informações técnico-científicas sobre o estado da arte, não somente no Brasil e no cone sul, mas em todo o mundo.
Voltar a realizar um evento desta magnitude em Rio Grande, no ano em que se completa 40 anos da criação do primeiro curso de graduação da área de oceanografia no país, é uma oportunidade de mostrar aos mais jovens, que recém começam sua carreira de estudante e de profissional, a história de uma trajetória institucional vitoriosa, nascida a partir do sonho de alguns, mas que acabou se concretizando como feito coletivo. É, acima de tudo, a oportunidade dos profissionais mais experientes, atarefados na labuta diária para avançar no conhecimento oceanográfico, fazerem aquela pausa tão merecida e sonhada, para rever e confraternizar com velhos e novos amigos. Afinal, Rio Grande, e o Cassino em particular, querem continuar cultivando a fama de local agradável e hospitaleiro, onde a oceanografia está presente em tudo o que se olha e se toca, em tudo o que se pensa e se fala.